Entrevista a Obarayi de Xangô (Balbino Daniel de Paula)

Março 3, 2012 § 4 comentários

 

Balbino Daniel de Paula, mais conhecido como Obarayn D’Xangô, nasceu em Ponta de Areia na Ilha de Itaparica, ligado á família de grande líder religioso, Alapini Pedro Daniel de Paula, em memória Ojé do Terreiro Lesen Egun Aboulá.

Obarayn é figura ilustre entre as autoridades dos candomblés de nação Ketu e consequentemente, de todos os cultos Afro-Brasileiros, querida pela sua representatividade e irreverência, respeitada pela sua capacidade, autoridade e sabedoria no que diz respeito à destreza nas obrigações da religião na Bahia, no Brasil e no mundo.

A trajetória de uma pessoa de Ponta de Areia na Ilha de Itaparica, ligada ao culto de babá-egun à posição de extrema responsabilidade e visibilidade na liderança de um terreiro como pai-de-santo com inúmeros filhos de santo em Salvador, no Brasil e também no exterior pode parecer pouco comum. Mas ela se explica pela ligação ancestral de Balbino com a sua cultura de origem e as amizades e contatos com pessoas dos mais diversos contextos sociais e culturais que o destino lhe proveu. E ela torna-se ainda mais evidente pelo grande carisma da sua personalidade e pela sua força espiritual que se sente, sempre de novo, ao ver o seu Xangô, admirado pelos seus irmãos e filhos de santo.

Quando foi iniciado em 1959, a sua mãe-de-santo, Mãe Senhora do Ilê Axé Opô Afonjá, tinha comemorado alguns meses antes as bodas de ouro, por coincidência no dia de aniversário de Pierre Fatumbi Verger (4/11). Fatumbi era muito ligado a Mãe Senhora e mais tarde a Balbino, ao ponto de ser uma das pessoas responsáveis pela criação e instalação do terreiro Ilê Axé Opô Aganju, no Alto da Vila Praiana, em Lauro de Freitas.

Obarayn D’Xangô possui laços familiares de Santo em Portugal, por intermédio do Agabá e do Otún Orisá Ilé Asè Omin Ògún. Tanto o Bábálórísá Jomar d’Ògún como o Bábálórísá Paulo d’Yemonjá foram adoptados por Jacilewá (Bábálórísá Aristides Masacarenhas de Ajagunã, ou como é conhecido pelo povo de Santo, Pai Ari de Ajagunã, Òmó Òrísá de Obarayn) tornando-se assim Òmó (filhos) Ilê Asé Opô Ajagunã e, consequentemente, netos de Santo de Balbino Daniel de Paula. Bábálórísá Paulo d’Yemonjá, inclusivé, deu o seu Odun Enjé e Oyê de Bábálórísá com Pai Ari d’Ajagunã, reforçando este vinculo.

Nas próximas linhas, transcreve-se a entrevista dada por Obarayn á revista Povo de Santo e Asé, conduzida por Pai Ari de Ajagunã.

Aristides Mascarenhas – Em que ano o senhor se iniciou na Religião de Matriz Africana na Bahia?

Balbino Obarayin – Em 1958, quando conheci a Yalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá, Maria Bibiana do Espírito Santo: Mãe Senhora.

A.M – O Senhor foi o primeiro filho de santo, do sexo masculino iniciado naquele Terreiro?

B.O – Sim, eu fui o primeiro filho de santo do sexo masculino de mãe Senhora e meu irmão Moacir de Ogum, que já faleceu, foi o segundo,.

A.M – Em que ano foi fundado o Ilé Asè Opô Aganjú?

B.O – Em 1972 – foi fundado o Ilê Axé Opô Aganjú, em Lauro de Freitas, sendo o Terreiro da linhagem tradicional de Ketu, saído do Ilê Axé Opô Afonjá, a minha Matriz.

A.M – Qual a ligação do Terreiro aos terreiros da Casa Branca e do Gantois?

B.O – São minhas o matrizes; o primeiro Terreiro de Candomblé da Bahia – Terreiro chama-se Yá Nosso Oká, conhecido como Terreiro da Casa Branca, o 2º Terreiro é o do Gantois e o 3º o Axé Opô Afonjá. São as casas matrizes.

A.M – O senhor foi o fundador do grupo dos Mogbás na Bahia?

B.O – Sim, em 1972, foram criados os 12 ministros de Xangô, sendo que no Ilê Axé Opô Afonjá minha avó Aninha criou o grupo dos Obás e no Aganju o dos Mogbás.

A.M – No Aganjú tem um memorial do Escritor Pierre Vergê?

B.O – Sim, temos uma Casa, em espécie de Memorial do meu amigo, filho, pai Mogbá D’Xangô Pierre Vergê, onde estão expostos objetos de uso pessoal do Etnólogo.

A.M – Como o senhor é fiel à tradição de solidariedade social no Terreiro?

B.O – No Aganju, mantemos uma Creche (Casulo Vovó Ana), que atende gratuitamente 50 crianças do Alto da Vila Paiana, administrada por minha irmã biológica Rosa D’Oxum – Mãe Pequena da Casa (Yakekerê) filha de santo de Mãe Senhora também.

A.M – Porque a Creche tem o nome de Ana?

B.O – Porque Ana é o nome de minha saudosa mãe, filha de Oyá uma pessoa muita especial para a nossa família. Esta foi uma forma de a homenagear.

A.M – Qual foi o Seu primeiro contato com o Candomblé?

B.O – No ano de 1948, conheci o pai de santo, de Oxalá chamado seu Vidal; eu iria fazer meu santo com ele mas não cheguei a fazer por que ele faleceu em 1958. Então fui para São Gonçalo e fiz a minha obrigação com Mãe Senhora.

A.M – O que o Senhor aprendeu no Candomblé?

B.O – Aprendi a sobreviver, com essas mulheres guerreiras; aprendi sabedoria, coisas de Axé, uma vida de grande conhecimento com a minha saudosa Mãe Senhora.

A.M – O que falta no Candomblé?

B.O – Hoje existem algumas informações e pouca formação; todos querem ser pais e mães de santo antes do tempo e sem o aprendizado do Awô – Segredo.

A.M – O futuro de Obarayn, qual é?

B.O – Nas mãos dos meus orixás, meus ancestrais, eu não me pertenço estou na Mão de Xangô.

A.M – Referencias do Candomblé?

B.O – Mãe Stella, Mãe Tatá, Mãe Carne, Ebomi Rosa de Oxum, meus filhos de santo, meus Mogbás… felizmente, Eu amo muita gente.

A.M – Fale-nos de Saudade.

B.O – Minha Mãe de Santo, mãe Senhora, minha irmã biológica Ana, meu Pai Pedro, meu irmão Moacy de Ogum, minha Sofia de Oyá e outros.

A.M – Quais os Cargos dados pelo Babalorixá?

B.O – Dei vários (Oyê) – meus primeiros filhos a receber Deká no Ilê Axé Opô Aganju, foram Ailton Santos em memória Babakekerê da Casa, meu filho Jasilewá Aristides Mascarenhas, recebeu também o posto de Asoju Obá Laio da Casa de Xangô; outros cargos dados foram a Egbomi Nininha de Oxoguiã Otum Orixá, Egbomi Sisi de Oxalufã Otum Kekerê, Piedade de Oxalá Yá Efun.

A.M – Quantos dos seus filhos de santo, possuem Casas abertas como Terreiros.

B.O – Já perdi a conta… tenho filhos de santo até aqui mesmo em Lauro de Freitas como Casa aberta – Tide de Ajagunã tem até o Terreiro dele Tombado igual ao meu, Mãe Lila de Oxum, Oni Dalewar e outros.

A.M – Deixe por favor, uma mensagem para o Povo de Santo.

B.O – Nós não precisamos buscar as nossas tradições, nas outras religiões, porque nós temos a força da natureza e somos livres para acreditar no nosso verdadeiro segredo (Awô).

 

 

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Entrevista a Baby Garroux: Yá Baby d’Oyá

Março 1, 2012 § 1 Comentário

Baby Garoux, ou mãe baby d’Oya como é conhecida, é uma Yalorixá que optou fixar-se no culto da Umbanda no Brasil, depois de calcorrear mundo, apreendendo conceitos e ensinamentos espirituais, passando por locais tão afastados geograficamente como o Arizona na América do norte e o Benin em África.

Jornalista de profissão, conta com colaboração em vários jornais brasileiros, com livros editados e um programa de televisão. é conselheira da feuca e um membro activo na comunidade dos cultos afro-brasileiros em s. paulo e no mundo.

A revista “Povo de Santo e Asè”, passou umas horas à conversa com esta cidadã do mundo. é um resumo desse dialogo, que apresentamos de seguida.

PSA: O QUE SIGNIFICA PARA SI ESTAR NA ESPIRITUALIDADE, E COMO ENTROU NESTE CAMINHO?

M.B: Eu costumo dizer aos filhos, que existem duas portas de entrada no Santo, no terreiro ou no caminho espiritual: a porta do amor ou a da dor, e eu, felizmente, entrei com a maior alegria do mundo pela primeira! Não tive a felicidade de começar no meu país, uma vez que no inicio estranhei algumas práticas e conceitos existentes. Por exemplo, vi uma imagem de Yemanjá em Santos, com umas unhas compridíssimas e umas pestanas enormes. Não era aquela representação que eu tinha da Grande Mãe; não era aquilo que eu via! O meu caminho começou de outra forma… como sou jornalista, na altura marquei uma reportagem no Arizona, com os Índios Navajos, em Santa Fé. O objectivo do estudo era aferir e testemunhar a missão e o trabalho

dos estudantes em encontrar artefactos históricos, para testemunhar a história daquele povo. Acabei por nunca chegar a Santa Fé, porque o que os estudantes realmente faziam, era “roubar” esses mesmos artefactos para serem vendidos a museus. Faziam-no para sobreviverem. Fui então visitar uma tribo Navajo, como reportagem de substituição e descobri então que eles são verdadeiros contadores de histórias, um povo afectuoso, com muita carga espiritual e mágica. Fui coma intenção de ficar uma semana, e acabei por ficar dois meses, iniciando-me com eles.

Entretanto, quando regressei ao Brasil, Jorge Amado e Caribé, que foram como pais para mim, disseram-me um dia “Nós vamos rodar terreiro com a Clara Nunes, e você vem connosco!” Eu assustei-me. Não fazia ideia do que era “rodar terreiro”; mas fui, apesar da minha intensa actividade jornalística. Penso que foi aí que iniciei a minha caminhada no Brasil. E fui abençoada e protegida pela minha mãe Oyá. Quando eu entrei num terreiro, com a Clara Nunes ao meu lado, ouvi um grito: “Hepa Hey Oyá”. Não era mais nem menos do que a Mãe Menininha do Gantois. Incorporei nesse mesmo instante, ao lado de Clara Nunes, outra filha de Yansã. A partir dai, tudo foi natural. As dificuldades vieram depois.

PSA: MAS O “CHAMAMENTO”, CHAMEMOS-LHE ASSIM, SENTIU-O QUANDO?

M.B : Desde pequena, que eu tenho uma responsabilidade muito grande para com a minha família. Sempre fui muita dada a ajuda-los, tanto que aos doze anos já estava fora de casa, a ajudar como podia. O chamamento, veio através dos mais velhos que fui conhecendo no caminho, e até hoje penso que mesmo com as dificuldades e atropelos que tenho sentido, valeu bem a pena.

PSA: PARA ALÉM DA INFLUÊNCIA QUE TEM DO POVO NAVAJO, SEI QUE TAMBÉM TEM UMA GRANDE INFLUÊNCIA DO POVO YORUBÁ. COMO ISSO ACONTECEU?

M.B.: Tinha mesmo que ter. Ser jornalista nesse aspecto foi uma bênção, porque me criou a facilidade do contacto e abriu-me a oportunidade. Fui morar para Dakar, para fazer um trabalho, e nessa época, o Darcy Ribeiro disse-me que se eu estava ali, tinha que conhecer uma tribo

existente na região. Mais uma vez, o que começou por ser uma reportagem de duas horas, acabou por se tornar uma estadia de sessenta e dois dias. Fui procurada pela embaixada, pelo consulado e ninguém me encontrava. Enquanto eles me procuravam, eu estava nessa tribo a ser feita para Yami Osorongá. Depois disso, não tem outra saída senão continuar. Fiquei muito amiga dessa tribo, a família Mayir no Benim (Família de Sangô), e através deles, sem passar pela Umbanda, entrei directamente para a “Nação”.Com eles aprendi a humildade, porque não tenho vergonha de chegar a casa nenhuma e dizer”Olhe, eu não sei fazer isto… ensina-me?”

PSA: COMO É QUE CONSEGUE INCORPORAR TODAS ESSAS INFLUÊNCIAS NO DIA A DIA DA SUA ESPIRITUALIDADE?

M.B: Eu considero que tudo é ensinamento e aprendizagem. Não posso diferenciar. Não posso de maneira nenhuma! A primeira vez que recebi a Preta Velha Vóvó Mariana foi no Haiti, não foi no Brasil! O que interessa não é a zona geográfica onde se está, mas sim o plano em que as entidades nos chegam e se manifestam! Da mesma forma que existem várias qualidades de Orisá, existem vários planos de energia, independentemente de onde nos encontramos e como as apreendemos. Por esse motivo, não pode existir diferenciação! Existem planos e pessoas que se conectam com as energias. Agora, tem que existir evolução. Eu tento me aprimorar, para não envergonhar os meus irmãos no Santo, e também para crescer como ser espiritual. Porque a espiritualidade não tem a ver com raça. Eu tive muita dificuldade em me afirmar por ser loira e não negra. Fui descriminada, porque loiras, só existiam no samba, não no Santo. Hoje, graças a Deus, sou reconhecida.

PSA: A MÃE BABY É UMA PESSOA MUITO ACTIVA. COMO CONCILIA A SUA VIDA ESPIRITUAL COM A SUA VIDA PROFISSIONAL ENQUANTO JORNALISTA?

M.B: O principal é não sentir vergonha nem receio de admitir a nossa fé. As pessoas admiravam-se por uma pessoa com algum status intelectual, já com livros lançados, estar na Umbanda. Perguntavam como poderia eu estar nessa “coisa”! Eu ficava revoltada! “Coisa?” respondia eu? “ E a coisa da tua vida, como é que vai?” Se eu for respeitada, eu respeito também, agora não tratem a minha religião como “uma coisa”, senão, como boa filha de Oyá, o búfalo vai em frente! Continuo na luta para defender esta religião e todas as nações! E utilizo a minha profissão, mediática, para fazer isso mesmo! O que interessa é o que eu penso e acredito, não o que os outros acham.

PSA: NA SUA OPINIÃO, QUAL A PRINCIPAL MISSÃO DE ALGUÉM QUE SE PRESTA A DAR ACOMPANHAMENTO ESPIRITUAL A OUTREM?

M.B: É simples. Pegar no ego, dar-lhe um nó e manda-lo fora! Se conseguir fazer isto, então poderá começar a chamar esse acompanhamento uma missão. Só assim consegue trabalhar o poder que está a tentar manejar. Apenas sem ego, conseguirá ajudar os outros a crescerem, porque você próprio já cresceu. Porque missão, é muito difícil de cumprir. Ninguém pode dizer que está neste mundo para cumprir uma! Pelo simples facto de não sabermos qual é! Apenas vamos seguindo orientações que nos vão ser dadas pelo caminho.

PSA: E O EGO DE QUEM PROCURA A RELIGIÃO COM OS INTUITOS E OBJECTIVOS QUE NÃO SÃO OS CORRECTOS, TAIS COMO A AUTO-PROMOÇÃO E A PROCURA DAS MAGIAS E RECEITAS DE CALDEIRÃO? COMO SER GERE ISSO?

M.B: Vamos aprendendo com o trabalho! Quantos e quantos Pais e Mães de Santo tem filhos que nunca conheceram e que se afirmam como descendentes deles? Sem nunca os terem conhecido? Hoje em dia faz-se uma obrigação, e pensa-se que se é Babalorixá ou Yalorixá! Mas estes são os desafios que se tem que ultrapassar. É esta a guerra. E quem nos ajuda, está lá fora, numa casa pequena ou dentro de um buraco, a receber muito pouco! Muitos dizem: “entrei para o Santo e perdi tudo! ” Mentira. Encontrou a sua realidade, mas só vai entender o plano geral e toda a verdade quando morrer, porque antes, ninguém sabe. Assim, pouco a pouco, os filhos vão aprendendo. Vão caindo e levantando, mas aprendendo. Cabe-nos a nós, Yalorixás e Babalorixás deixar o ego de lado e dar apoio. No dia que os problemas acabarem, em que acabar a ventania, o marasmo instala-se e acaba a religião.

PSA: MUDANDO UM POUCO DE ASSUNTO, O QUE SIGNIFICA PARA SI SER FILHA DE OYÁ.

M.B: Que orgulho! Não me tirem Oyá da frente! Eu tenho tanto amor por Ela, que espero que Oyá perdoe todas as inconsequências que eu faço… eu sou tão feliz com este respeito e carinho que tenho pela minha Mãe.

PSA: DO TEMPO QUE ESTÁ EM PORTUGAL, O QUE PENSA DA ACTUAL SITUAÇÃO DOS CULTOS AFRO NO NOSSO PAÍS?

M.B : Eu estou surpresa. Eu oiço tantas coisas esquisitas em S. Paulo que chego a pensar que Portugal passou á frente! É aqui que se faz a diferença! Tenho muitas referências de gente séria e honesta, e que estão a trabalhar muito bem! Estou apaixonada! Gostava de conhecer mais, porque conheço muito pouco. Não tinha ideia do impacto desta religião neste lado do Atlântico. Mas é necessário haver respeito, e não repetir situações como vi em outros países da Europa, que não tem fundamento. Em Itália, por exemplo, com a influência da proximidade do Vaticano, há quem afirme que incorpora Jesus! Isso não é possível. Se não existir controle, gera-se uma confusão muito grande.

PSA: PARA TERMINAR MÃE BABY, QUE MENSAGEM QUE DEIXAR AOS NOSSOS LEITORES?

M.B: Deixo uma mensagem aos mais jovens. Quem está a começar, que tenha a noção da grande responsabilidade que vai carregar. A responsabilidade de fazer bem feito! E nunca se esqueçam que depois de uma montanha, existe sempre outra! Cuidado com o caminho!

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